quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Páginas Amarelas (.cfs.)

Sobretudo preto, chapéu preto, guarda-chuvas preto, grandes óculos de armação preta. Era a farda com que se vestia nos dias de inverno desde que se aposentou. O cuidado impecável do velho ainda disfarçava o desgaste de suas roupas, tão ou mais velhas do que aquelas ruas por onde passava de volta para casa.
Fora buscar seu jornal na banca de revistas, que ficava em frente à padaria onde tomava seu cafezinho, que era sempre preto, sem açúcar. A padaria, por sua vez, ficava em frente à praça, onde ele gostava de se sentar para jogar pipoca aos pombos, que ignoravam os passos apressados das pessoas em direção ao trabalho.
Naquela manhã, como ele fazia todas as manhãs desde que se aposentou, voltou para casa devagar, olhando os prédios envelhecidos do centro da cidade. Era sempre o mesmo trajeto, e ele conhecia bem aquelas esquinas, mas gostava de olhar os prédios velhos. Achava que, como o rosto que via no espelho todas as manhãs desde que se aposentou, a cidade também tinha rugas e cabelos brancos e olheiras profundas.
Chegou em casa, pendurou o guarda-chuvas preto, depois o chapéu preto e depois o sobretudo preto num velho cabideiro. Precisava buscar outro lugar para morar, pois sua casa, a única que restou na região, daria lugar a um novo prédio comercial, que, como os outros, enrugaria e envelheceria e teria profundas olheiras escuras. Sentou-se numa poltrona ao lado do telefone e pegou umas páginas amarelas.
Precisava encontrar outro lugar para morar. Mas não procurou por uma imobiliária. Procurava, naquelas linhas manuscritas, por dias em que ele ainda não era velho nem tinha olheiras profundas. Dias em que trabalhava e dormia e discutia sobre política e sobre futebol e fazia planos e poupava para o futuro e ia aos bailes e à igreja. E riu, triste, quando leu a última linha que ela escrevera antes de parar de envelhecer. Era um recado para que cuidasse das rosas do jardim da frente. Mas ele colheu algumas rosas e as colocou delicadamente junto à lápide. E então, se aposentou.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Paisagem

Depois de um happy-hour prolongado, peguei o biarticulado, o último, e desci na Estação Central. Saindo do tubo avistei o prédio antigo em estilo greco-romano. A fonte da Santos Andrade, há muito havia sido desligada, por isso eu podia ouvir até o eco das batidas do meu salto-alto me equilibrando sofridamente sobre as calçadas curitibanas.
Pé-ante-pé o som ecoado cada vez mais ganhava vida, era mais forte e compassado que o meu andar, minha percepção estaria alterada pelo álcool?
Eu estava sendo perseguida!
Não havia mais ninguém na rua. Ponto de táxi: vazio. Na rua havia, além de nós dois, o frio.
- Vou acelerar meus passos e entrar no mercado 24h da XV. - pensei - e não foram só os meus passos que se aceleraram.
O som dos passos do outro ficou mais nítido e intenso e eu já conseguia ouvir outra respiração, não só a minha.
Quando alcancei o Teatro Guaíra, a uma quadra do mercado e sob à sombra da marquise do Teatro, percebi que seria abordada, tentei rezar, porque gritar seria em vão, procurei sobre o peito, pendurado no pescoço, o meu amuleto. (Nas horas de aflição o seguro com toda a minha força e rezo.) Isso me acalma. No entanto, não o encontrei. O outro desespero era maior. Agora já era.
- Moça, você deixou isto cair no tubo.
Era meu amuleto. Que alívio!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Vamos divulgar meu novo blog!!!

Vou me dedicar mais ao meu mais novo blog...
Ainda voltarei aqui sempre com muito carinho!
No entanto, há uma causa maior em minha vida.
Por favor, visitem, divulguem!
E, principalmente, CADASTREM-SE!!!!


www.vamosdoarmedula.blogspot.com


Muito obrigada.